omo agora,
tanta prática de fechar os olhos às coisas que não desejava
ver.
- Por que teria Jon Arryn tomado um súbito interesse pelos
filhos ilegítimos do rei? O homem mais baixo encolheu um
par de ombros encharcados.
- Ele era a Mão do Rei. Sem dúvida, Robert pediu-lhe que
lhes assegurasse a subsistência. Ned estava molhado até os
ossos e sua alma tinha se arrefecido.
- Tinha de ser mais que isso, caso contrário, por que matá-lo?
Mindinho sacudiu a chuva dos cabelos e soltou uma
gargalhada.
- Agora compreendo. Lorde Arryn soube que Sua Graça
enchera as barrigas de umas quantas prostitutas e mulheres
de pescadores e por isso teve de ser silenciado. Não
surpreende. Permita a um homem assim que viva e, em
seguida, é provável que ele diga que o Sol nasce no oriente,
Ned não podia dar àquilo nenhuma resposta além de um
olhar carregado. Pela primeira vez em anos, deu por si
pensando em Rhaegar Targaryen. Gostaria de saber se
Rhaegar frequentara bordéis; não sabia bem por que, mas
achava que não.
A chuva caía agora com mais força, fazendo arder os olhos e
tamborilando no chão. Rios de agua negra corriam pela colina
abaixo quando Jory gritou "Senhor", com a voz rouca de
alarme, E, no instante seguinte, a rua estava cheia de
soldados.
Ned vislumbrou cotas de malha sobre couro, luvas e
caneleiras, capacetes de aço coroados ror leões dourados. Seus
mantos aderiam-lhes às costas, ensopados de chuva. Não teve
tempo de contar, mas havia pelo menos dez, uma fila deles, a
pé, bloqueando a rua, com espadas e lanças de ponta de ferro.
Ouviu Wyl gritar "Atrás!", e quando virou o cavalo havia
mais atrás deles, cortando-lhes a retirada. A espada de Jory
saiu da bainha, tilintando.
- Deixem-nos passar, ou morrerão!
- Os lobos estão uivando - disse o líder. Ned podia ver a chuva
que lhe escorria pelo rosto,
- Mas é uma alcateia muito pequena.
Mindinho fez avançar seu cavalo, um passo cuidadoso de cada
vez.
- Que significa isto? Este é a Mão do Rei.
- Este era a Mão do Rei - a lama abafava o ruído dos cascos
do garanhão baio puro-sangue. A linha abriu-se para deixá-lo
passar. Num peitoral dourado, o leão de Lannister rugia em
desafio. - Agora, a bem da verdade, não tenho certeza do que
ele é.
- Lannister, isto é uma loucura - disse Mindinho. - Deixe-nos
passar. Somos esperados no castelo. Que pensa que está
fazendo?
- Ele sabe o que está fazendo - disse Ned calmamente.
Jaime Lannister sorriu.
- É bem verdade. Estou à procura de meu irmão. Lembra-se
do meu irmão, não é mesmo, Lorde Stark? Esteve comigo em
Winterfell, De cabelos claros, olhos desiguais, uma língua
afiada. Um homem baixo.
- Lembro-me bem dele - respondeu Ned.
- Parece que encontrou alguns problemas na estrada. O
senhor meu pai está bastante aborrecido. Não tem por acaso
alguma ideia de quem possa desejar mal a meu irmão, não é?
- Seu irmão foi capturado às minhas ordens, a fim de
responder pelos seus crimes - disse Ned Stark.
Mindinho grunhiu de consternação.
- Meus senhores...
Sor Jaime arrancou a espada da bainha e incitou o garanhão
a avançar.
- Mostre-me o seu aço, Lorde Eddard. Eu o matarei como a
Aerys se tiver de ser, mas preferiria que morresse com uma
lâmina na mão - dirigiu a Mindinho um olhar frio e
desdenhoso. - Lorde Baelish, eu sairia daqui com alguma
pressa se não quisesse ficar com manchas de sangue nas
dispendiosas roupas.
Mindinho não precisava ser instado.
- Chamarei a Patrulha da Cidade - prometeu a Ned. A linha
dos Lannister abriu-se para deixá-lo passar e atrás dele se
fechou. Mindinho enterrou os calcanhares na égua e
desapareceu atrás de uma esquina.
Os homens de Ned tinham puxado as espadas, mas eram três
contra vinte. Olhos observavam de janelas e portas próximas,
mas ninguém pensava em intervir. Seu grupo estava
montado, os Lannister, a pé, exceto o próprio Jaime. Uma
investida poderia libertá-los, mas pareceu a Eddard Stark que
tinham uma tática mais segura.
- Mate-me - disse ele ao Regicida -, e Catelyn com certeza
matará Tyrion.
Jaime Lannister empurrou o peito de Ned com a espada
dourada que derramara o sangue do último dos reis-dragão.
- Mataria? A nobre Catelyn Tully de Correrrio, matar um
refém? Penso... que não - suspirou. - Mas não estou disposto a
arriscar a vida de meu irmão com a honra de uma mulher -
Jaime recolheu a espada dourada à bainha. - Portanto,
suponho que o deixarei correr para Robert, para lhe contar
como o assustei. Pergunto-me se ele se importará - Jaime
atirou os cabelos molhados para trás e virou o cavalo. Depois
de ultrapassar a linha dos homens de armas, dirigiu-se ao
capitão. - Tregar, certifique-se de que nenhum mal aconteça a
Lorde Stark.
- Como quiser, senhor.
- Apesar disso... não vamos querer que ele saia daqui
inteiramente impune, portanto - através da noite e da chuva,
Ned vislumbrou o branco do sorriso de Jaime -, mate seus
homens.
- Não! - Ned Stark gritou, levando a mão à espada. Jaime já
seguia a galope lento pela rua quando ouviu Wyl gritar.
Homens aproximavam-se de ambos os lados. Ned abateu um,